28 de junho de 2014

Lua

Em posse de sua atenção
A lua, na portela
já não sente solidão.
É a mesma lua, na viela;
que de certo, sem razão;
Sem o pudor que havia nela
Põe pra longe a escuridão.
Vê Luana, na janela,
E se ilumina de emoção.
Ergue a moça, com cautela,
Que aos poucos sai do chão.

Que beleza mais singela
Ver Luana, na janela,
com a lua em comunhão.

4 de maio de 2013

Soneto Doente

Após todos esses anos, eis o grito:
Tirem-me desta incomum enfermaria!

Já me cansei das mentes engessadas.
Já não suporto as almas acomodadas.
Me adoece, essa felicidade perturbada.
Me ferve o sangue, toda gente mascarada.
Talvez até seja um sentimento recíproco.
Talvez também não me suportem, veja bem.
Como pode alguém viver como aqui se vive?
Como pedem que eu mantenha a paciencia?
Veja como sorriem tão tristemente.
Veja como vivem: tão moribundos...
E eu aqui, preso há tantos anos.
E eu aqui, tornando-me um deles...

2 de maio de 2013

Ciclos

"Voar não posso. Andar me custa paciência.
 Que tormento me causou minha imprudência.
 Abandonado nessa incrível terra isolada
 onde a razão que conheço não vale nada.

 E a chuva, que torna o chão barroso;
 Fazendo o passeio ainda mais custoso.
 Entretanto, parar não é uma boa escolha;
 Isso, claro, se a intuição não me falha.

 Me assustam, esses vultos vaporosos.
 Embora riam, não parecem amistosos.
 Mas antes fossem só eles a me assustar;
 Todo o resto parece se mover neste lugar.

 Até as rochas estão em visível metamorfose.
 Observando bem, mais parece uma apoteose.
 Tão gracioso movimento já causa efeito
 afastando o medo que tomava-me o peito.

 Como é bom me ver livre do medo;
 E reavaliar este lugar como um todo.
 Afinal, é como me disse meu anfitrião;
 Aqui eu ficarei, quer goste, quer não.

 Pois que assim seja, afinal de contas;
 Mais uma aventura dentre outras tantas.
 Talvez aqui é onde eu possa encontrar
 o que eu buscava e não tinha em meu lar."
 -sai-

 -Vulto, ao longe-
"Meus parabéns, caro visitante.
 É certo que chegou aqui por desespero.
 Mas demonstrou força, nesse instante.
 Vejamos como se sai no caminho severo."

16 de janeiro de 2013

Ciclos IV

"Seja bem vinda, alma nova!
 Trazes o semblante carregado.
 Vejo que algum male lhe estorva.
 Diga-me. Por que estás assustado?

 Mas não, não me responda ainda.
 Mil perdões, meu companheiro.
 Como, no ato de sua vinda,
 nem pareço cavalheiro...

 Sente-se, faça-nos o favor.
 Sente-se e ouça o que eu digo.
 Ouça meus cantos, de alegria e dor.
 Depois cante-me os seus, bravo amigo.

'Houve já um tempo, e isso, já há muito;
 Mas se recordo, juro, ainda o sinto.
 Era dentre os homens o mais justo
 e isso, até, sem muito custo.

 Com destreza, aprendi a arte:
 Observar e julgar tudo, à parte.
 Mas veja só: da arte surge meu male;
 De sorte que este só, a muitos equivale.

 Aos poucos, de tudo o mais eu me afastava.
 Das coisas da vida, e tudo o que amava.
 E isso, até, sem sequer me dar conta.
 É o preço de quem aqui se levanta.

 Passado algum tempo desse começo,
 me dei conta desse expressivo preço.
 Foi quando tomou-me tão grande angústia;
 Imperando em minha alma todo tipo de apatia.

 Vagava cabisbaixo, totalmente desolado.
 Trazia ainda menos gente ao meu lado.
 Carregava em mim tamanha tristeza
 que demorei a ver com clareza.

 Mas eis que, acredite ou não,
 esta epifania tomou-me o coração:
 E se também essa tristeza faz parte
 e com ela, fica completa a minha arte?

 Foi quando me dei conta do que eu sou.
 Mude a arte e algo em mim já mudou!
 É ela, afinal, quem me define.
 Talvez a isso você se atine.

 Doravante, sigo ainda mais firme.
 Não há mais na dor, o que me deprime.
 E aqui estou, agora, de coragem renovada.
 Preparado para encarar orgulhoso a jornada.'

 Eis aqui, amigo, a minha amarga história.
 Suponho que você já retomou o fôlego.
 Conte-me sobre sua vida inglória.
 Quero compreender-lhe o âmago."


"Agradeço-lhe a compreensão.
 Sinto que és uma alma confiável:
 Apresenta-se a mim como um bom irmão
 aqui, onde tudo me soa tão desagradável.

 Peço perdão por lhe copiar os modos;
 Mas eu não procederia diferente.
 Defronte a todos meus medos,
 exponho-lhe minha mente:

'Ainda não há muito tempo
 desde que eu fora contente.
 Mas hoje, se olho mais atento;
 Ah! Como eu invejo toda essa gente.

 Vestia sempre a máscara do sábio.
 E como gostava de interpretar.
 Disso, embora pareça dúbio,
 eu sempre estive a par.

 Tomado por autoconfiança
 ousei-me a ir além da imagem.
 E embora nesta não houvesse mudança,
 meu íntimo encheu-se de terrível vertigem.

 Se soubesse de antemão, talvez o evitasse;
 Mas aí já era tarde para voltar atrás.
 Já me tornara vítima desse impasse.
 Invejo-te pois sabes o que faz.

 Se soubesse como tentei desistir
 talvez sequer seria-me tão atencioso.
 Porém como eu agiria de forma a me convir
 Se esquecer-me do que eu passei é tão penoso?

 Responda-me se possível, meu estimado amigo:
 Como se convive com tão grande tristeza?
 Enlouquece-me o que ela faz comigo.
 Suportá-la me parece uma proeza.'"


"Em poucas palavras ditas já vejo
 como lhe vem massacrando, seu íntimo.
 Acredite. Embora ainda não seja seu desejo
 seu gosto pela arte ainda se tornará legítimo.

 Até lá, sinto informar-lhe, mas nada posso fazer.
 Nada além de observar a sua escalada exaustiva.
 Supera essa necessidade que tens de prazer.
 É assim que, aqui, algum gozo se cultiva.

 Dou-lhe essas palavras como presente.
 Não me decepcione e cultive-as com zelo.
 Atente-se com empenho, e explore o que sente.
 E não existe no mundo quem, por ti, possa fazê-lo.

 Entenda isso desde já. Eu creio que virá a ser útil:
 Supere primeiro os medos que você tem carregado.
 E faça antes que te tornem o pensamento vil.
 Antes que tornem-se um fardo mais pesado.

 Ademais, cabe a ti descobrir o restante.
 Se sabes que não pode voltar, seja bem-vindo.
 Vai encontrar-se consigo mesmo bem logo, adiante.
 Agora não se demore mais. Aqui me despeço. Vamos indo."

10 de agosto de 2012

Ciclos III


Seduz tremulante, em chama viva.
Em seu caminho não há quem sobreviva.
Voraz em modos. Altiva elegância.
Irremediável dissonância.

Traduz em cinza sua angústia.
E a contragosto, também a alegria.
Veloz, impulsivo, altissonante.
Incansável dança cambaleante.

Risca o solo em toque quente.
Sem rodeios, segue em frente.
Fervoroso, quem lhe opõe;
Violência o impõe.

Descuidado em cada gesto.
Prende a atenção a qual lhe presto.
A todo novo objetivo;
Seu empenho é quase vivo.

Me admira a tua coragem.
Assustados, os males  fogem.
Audácia brilhante;
Visível mesmo distante.

Então, fátuo fogo;
Do trepidar tão majestoso.
De tocar-lhe, desejoso;
Hei de tornar-me animoso;
E com teu bando desastroso;
Perpetrar meu novo jogo.

22 de junho de 2012

Metrópoles


Apesar do calor insuportável
de pessoas, carros e chaminés amontoados;
Sinto frio.

À despeito de toda agitação
do constante vai-e-vem ao meu redor;
Sinto tédio.

Em contraste com as luzes intensas
que clareiam até o espaço;
Me sinto sombrio.

Mesmo cercado de pessoas,
de suas venturas e desventuras;
Me sinto só.

Mesmo com seu ensurdecedor barulho
que por vezes ofusca a minha voz;
Me sinto surdo.

E quando de nada mais preciso,
ainda assim;
Me sinto insatisfeito.

Bem-vindo à metrópole, enfim.
Onde se sentirá vazio;
Mesmo cercado de opções.

4 de maio de 2012



Depois de sacudir a touca,
de pouca memória,
oca.

Ele aprendeu a menina,
que após absolver sua essência
canina,

Viajou para onde um levanta
e se molha,
enquanto o outro se deita
e pra dentro de si,
olha.

Plantou-se nos braços
e abraços,
assaltou textos
e traços.

Dissolveu a cara de nuvem
marcada
de pálida e lacônica agonia,
que antes a si mesmo trazia,
que agora, é uma carta
deslocada.

26 de março de 2012


Você transforma minha brisa em brasa
e me passa. Assa.
Eu transformo sua cama em caminho
e te canto. Tanto.

Você me seca, me chama,
me arma. Karma.
Eu mudo seu rumo, me aprumo
e te fumo. O sumo.

Você me aperta e entrega,
me rega. Se prega.
Eu apareço e o conheço,
um começo. Sem preço.

Você engole e aperta o rosto,
meu gosto. Exposto.
Eu caio no ensejo do nada
e me mantém estirada. Chapada.